Investigação em (tempos de) crise?

De um lado, queixas: redução do financiamento da investigação. Do lado do presidente da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), Miguel Seabra, a garantia de que o investimento em ciência, apesar da crise, é muito significativo. O Obli ouviu a opinião de três jovens investigadores barcelenses – Ana Ferraz, Hugo Sousa e Renata Gomes – e ficou a saber o que pensam a respeito do (des)investimento na ciência e investigação.

Em contexto de crise, os cortes são, regra geral, a opção mais fácil. As políticas de austeridade e consequentes cortes no investimento na ciência e investigação têm levado a geração mais qualificada de sempre a abandonar o país. A ideia, que parece ser consensual, pode significar um retrocesso em relação ao patamar onde o trabalho continuado dos últimos anos colocou Portugal. Mesmo assim, numa altura de contenção e cortes, há quem desenvolva trabalhos com mérito reconhecido, não só em Portugal mas também no estrangeiro.

Fora do país há pelo menos 15 anos, Renata Gomes faz investigação há sete. A trabalhar na área de medicina cardiovascular e regeneração cardíaca, a investigadora barcelense foi reconhecida, em 2012, pelo Parlamento Britânico. Apesar de simbólico, Renata Gomes admite que o prémio foi “muito importante”, na medida em que o governo reconheceu o papel essencial dos cientistas: “deu-nos acesso a grupos de trabalho políticos, nos quais podemos sensibilizar os políticos para que tomem decisões adequadas à realidade do dia a dia dos cientistas”, explica.

Sensibilizar os decisores para a relevância da ciência e da investigação é um passo importante.

Hugo Sousa entende que importa “reconhecer que os avanços científicos irão contribuir em muito para um mundo melhor”. “Temos de apostar na formação de jovens, dar-lhes as ferramentas para que não se percam oportunidades de melhorar o nosso futuro”, sugere o investigador, coordenador do Grupo de Investigação em Oncologia Molecular do Centro de Investigação do IPO Porto.

Investimento em Ciência e Investigação

Há a ideia de que, no estrangeiro, os cientistas são mais apoiados do que em Portugal. Hugo Sousa lembra, porém, que têm surgido condições para que os investigadores do nosso país possam equiparar o seu financiamento ao mesmo nível daquele que existe noutros locais do mundo. Lembra inclusivamente que “o European Research Council, através do Parlamento Europeu e dos seus programas de financiamento, tem distribuído muitos milhões para apoio a projetos de investigação sólidos”. O importante, considera, “é manter os olhos abertos e aproveitar todas as janelas de oportunidades”.

É precisamente para não perder oportunidades que alguns investigadores optam por desenvolver o seu trabalho no estrangeiro. Na bagagem, levam vasto conhecimento, ideias, projetos. Procuram o apoio e o reconhecimento que, muitas vezes, só obtêm fora de portas.

Hugo Sousa não tem dúvidas: “Sempre fomos muito bons a formar pessoas e as qualidades dos nossos investigadores são extremamente bem reconhecidas por todo o mundo”. Ana Ferraz é o exemplo mais recente. Em julho deste ano, a jovem investigadora venceu o Microsoft Imagine Cup 2013, na categoria de cidadania. Na final da competição, na Rússia, Ana Ferraz – que faz investigação na área das tecnologias aplicadas à saúde e biologia, desde 2007/2008 – recebeu convites de colaboração com outra universidade e houve inclusivamente quem quisesse apoiar o projeto “For a Better World”. A investigadora barcelense reconhece as vantagens que surgem com as portas que se abrem – porque “por vezes é necessário certos apoios para os trabalhos avançarem”, lembra –, mas, caso possa, pretende continuar a desenvolver o seu trabalho em Portugal. Ana Ferraz diz ainda não ter sentido diretamente os cortes, embora compre do seu bolso o material de que necessita.

Hugo Sousa prevê que as consequências da política de cortes possam ser “muito graves a curto prazo”, levando ao encerramento de linhas de investigação e à perda de jovens investigadores. Para combater esse desaproveitamento do potencial nacional, sugere Hugo Sousa, deve apostar-se de forma mais integrada e determinada na formação científica. A ideia é partilhada por Renata Gomes: “O sistema de investimento na ciência e apoio aos cientistas precisa de ser revisto e remodelado em Portugal”.

| Reportagem publicada na edição 0.2 do Obli (setembro de 2013) |

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