De Barcelos para a Seleção Nacional: irmãs driblam futebol feminino

O gosto pelo futebol vem-lhes de tenra idade. É inevitável dizer-se que está nos genes. Há anos, Leandra assistia aos treinos da irmã, Regina Pereira – atleta que viria a ser um dos nomes reconhecidos no futebol feminino português –, e já se lhe adivinhava um futuro no desporto-rei. Só não se sabia que havia de seguir as pisadas da irmã, também na Seleção Nacional. Leandra e Regina, barcelenses, jogam na «elite do futebol feminino nacional», ambas a médio-centro.

O gosto pelo desporto-rei, diz Regina, «já vem de família»: «o meu pai também jogou futebol durante muito tempo, a minha mãe jogava futebol lá na aldeia e, se calhar, foram eles também que me passaram o bichinho», conta ao Obli. A atleta foge um pouco ao padrão mais habitual, sendo que os pais não só apoiaram como incentivaram a sua escolha: «Até foram eles que me incentivaram a praticar desporto, principalmente futebol. O meu pai, ao início, ainda me tentou levar para o atletismo, mas eu sempre disse que correr para aquecer não era para mim. Depois incentivaram-me para o futebol e, até aos dias de hoje, sempre me apoiaram a 100%».

A história de Leandra confunde-se com a da irmã. A jogadora, de 16 anos, diz mesmo: «basicamente, a história dela é a minha história». Leandra joga futebol desde os dez anos. «Joguei numa escolinha de futebol – no Grupo Desportivo de Creixomil –, com os rapazes, durante um ano, e depois, na época seguinte, com 11 anos, vim para o Vilaverdense, onde estou até agora». A treinadora da equipa de Vila Verde lembra-se dela, nessa altura. «Conheço a Leandra desde os nove anos». «Ela vinha connosco treinar, fazer a pré-época e acompanhava-nos sempre», recorda Alexandra Coutada.

Seleção Nacional: um sonho tornado realidade

Com 21 anos, Regina Pereira é uma das jogadoras mais experientes da Seleção Nacional. A atleta barcelense pratica futebol desde os 11 – começou na AD Carvalhal, depois ARC Sequiade (ambos clubes barcelenses) e agora Vilaverdense Futebol Clube – e representa as cores de Portugal desde os 15, somando já 21 internacionalizações na seleção sub-19 e, à data do fecho desta edição, 26 pela seleção principal.

Regina recebeu a primeira convocatória, para as sub-19, precisamente no dia de aniversário. «Foi a melhor prenda que tive até agora», garante. «Representar as cores de Portugal e ter aquele símbolo ao peito é o realizar de um sonho. Treinei quase todos os dias para conseguir chegar lá e ver o sonho concretizado é muito bom», conta ao Obli. «Para quem vive, quem lutou muito para lá chegar, ver esse sonho concretizado é mesmo uma sensação indescritível», conclui.

O sonho tornado realidade assume-se, de resto, como uma responsabilidade acrescida: «No momento em que vestimos a camisola da Seleção, temos outras responsabilidades, temos outra figura a manter e eu gosto desse desafio». Em declarações para o site da Federação Portuguesa de Futebol (FPF), Regina dissera: «desde o primeiro momento em que fui chamada à Seleção Nacional que assumi o compromisso de lutar e de fazer cada vez melhor para merecer a confiança dos treinadores». Frequentemente chamada pelo anterior selecionador, António Violante, continua, de resto, a ser escolha do atual, Francisco Neto.

Leandra, a irmã, seguiu-lhe as pisadas. Foi chamada, pela primeira vez, à Seleção em janeiro de 2013, então com 14 anos. «O sonho de qualquer atleta, qualquer que seja a modalidade, é representar o seu país», reconhece. No caso da barcelense, «poder representar tão cedo – eu tinha 14 anos – é fantástico. Ainda para mais, no futebol feminino, que é tão desvalorizado ainda, foi, e é, uma sensação maravilhosa», o reconhecimento do seu trabalho diário, confessou ao Obli.

Reconhecimento barcelense!? A indiferença pelo feminino

Naturais de Mariz, Leandra e Regina Pereira sentem-se praticamente desconhecidas em Barcelos. Regina sublinha, porém, que isso, embora a magoe, não desmotiva: «desde que tenha o reconhecimento de quem realmente apostou em mim e de quem acredita em mim, é mais importante».

Também Leandra, igualmente (re)conhecida internacionalmente, atenta: «eu até acho que só mesmo quem nos conhece – a nossa família e amigos – é que sabe que nós somos internacionais». «Às vezes penso que talvez se fôssemos rapazes, se fosse um rapaz a jogar futebol e fosse internacional, se calhar até era, sei lá, a estrela da cidade ou a pessoa mais popular. Como somos raparigas, é completamente indiferente», lamenta.

A treinadora da equipa feminina do Vilaverdense FC, Alexandra Coutada, também barcelense, desvaloriza: «Digo-lhes que devem sempre fazer o melhor para elas e tentarem ir o mais longe possível e sentirem-se bem com elas. Um dia as coisas vêm ao de cima, quando tiverem de vir». «Há pessoas que se interessam, outras que se interessam menos; temos de saber lidar com isso. A nossa parte [dos técnicos] é demonstrar-lhes que isso não é o importante, embora toda a gente goste de ser reconhecido, mas não é o importante. Elas, na Seleção, já são reconhecidas, por isso não têm mais por que estar a lamentar-se», conclui.

A agora treinadora foi já colega de equipa de Regina, no Carvalhal e no Sequiade. Só depois passou a treinadora. Primeiro, durante um ano, no Sequiade, a «meio treinar» (sendo técnica e jogadora). Depois, desde há cinco épocas, no Vilaverdense FC. Conhece bem as duas irmãs, portanto. «Sempre vi a Regina como uma boa jogadora, com um pé esquerdo fabuloso, com uma boa visão de jogo, com um carácter de líder e que, mais cedo ou mais tarde, se ia impor, crescer, como está aí a prova. Não enganou», garante ao Obli. Já Leandra é, de acordo com a técnica, «uma parabólica: capta tudo». Em comum: «têm uma boa educação, têm um bom suporte, sabem estar, sabem ouvir, sabem respeitar», sublinha Alexandra Coutada. O estímulo e o apoio familiares foram importantes, no entender da treinadora, para aquilo que as irmãs Leandra e Regina Pereira são hoje. «O exemplo delas é um exemplo para muita gente. São pais que sempre as acompanharam, que sempre as ajudaram em tudo o que era preciso, com idas aos treinos – que não tínhamos transportes, quando começámos todas juntas, e mesmo agora», assegura Alexandra Coutada.

O futuro das irmãs escreve-se nos relvados?

«Qualquer pessoa que viva o futebol como nós vivemos», diz Leandra Pereira, «adoraria fazer do futebol a sua vida, mas, primeiro, em Portugal é impossível, não temos essas condições nem mentalidade para tal». Acresce que, «depois dos 30/35 anos, o futebol acaba», sendo que, terminada a carreira de jogadora, uma mulher não tem propriamente como continuar no futebol, no entender da jogadora. «Por isso, tenho que estar com os pés assentes no chão, dedicar-me aos estudos, para ter sempre uma alternativa», antecipa a jovem.

Mas, «se a oportunidade surgir, porque não?», embora, para já, seja ainda cedo: «É uma decisão muito complicada e, nesta idade, acho que é impensável. Tenho 16 anos, sou muito nova para sair [do país]».

Para a irmã mais velha, Regina, seguir o futebol profissional «ainda é um objetivo e um sonho» que quer concretizar. Mas importa «viver um dia de cada vez», diz. «A Regina tem capacidade, tem estrutura suficiente, […] é uma jogadora que aspira no futebol a nível profissional e espero que lhe surja essa oportunidade e torço, torcemos, para que isso lhe apareça e que ela realize o seu sonho, porque a Regina vive para o futebol», atenta Alexandra Coutada. O caso de Leandra é «mais engraçado»: «é uma miúda super inteligente e vai chegar uma altura em que, de certeza absoluta, lhe vão aparecer propostas, mas a nível de estudos a Leandra vai ter que ponderar muito o que é melhor para ela», antevê a treinadora.

No 10.º ano de Ciências e Tecnologias, conciliar futebol com estudos, reconhece Leandra Pereira, «é muito complicado». «Quando são estágios longos, de 15 dias, a Federação leva um professor para nós tentarmos acompanhar as aulas. Temos cerca de uma hora por dia, obrigatória, de estudo. Fora aquelas que quisermos – e devemos, claro – estudar. Estamos minimamente a par, mas não é a mesma coisa e então quando chegamos é muito complicado», explica ao Obli a atleta que tem conseguido, ainda assim, «conciliar e ter boas notas». Aliás, a prática do futebol ajuda Leandra a eliminar o stress escolar e a socializar, diz.


«É futebol feminino. Não interessa, não chama»

Leandra chegara do Torneiro de Desenvolvimento da UEFA (Vila Real, 12 a 15 de maio) – onde representou a Seleção Nacional feminino sub-16 – no dia anterior à entrevista do Obli. Confessou-se, inclusivamente, surpresa, pela adesão das pessoas e pelo apoio que manifestaram às atletas lusas. «Estivemos em Vila Real e a adesão por parte das pessoas foi enorme. Foi muito bom estarmos dentro de casa e vermos muitas pessoas a cantarem e a torcerem por nós e foi uma surpresa porque, pelo que temos visto, há muito pouca adesão das pessoas», observa. «É futebol feminino, não interessa, não chama», lamenta Leandra.

Mas, acredita, ainda há muito a mudar. Desde logo, na formação: «A aposta dos clubes na formação tem que melhorar e muito. As seleções jovens dos outros países têm tanta qualidade porque, sem dúvida, os clubes de lá investem na formação. E vê-se pelo porte delas, pela resistência, pelas características físicas, que são jogadoras que, mesmo com a nossa idade, trabalham diariamente e vivem para o futebol».

Regina concorda: «ainda falta muito para as pessoas verem o futebol feminino com bons olhos e nem se pode comparar a outros países onde o futebol feminino é desporto-rei, como é o caso dos Estados Unidos». «A mentalidade dos portugueses ainda está muito abaixo daquilo que já era de esperar. Acho que olham para o futebol feminino com outro ar, com ar de que nunca dá nada e nem chegam a apostar verdadeiramente nas jogadoras», explica. «Às vezes, mesmo aqui, em Vila Verde, o futebol feminino também não é visto de maneira séria. Até se ouve umas bocas, por estarem raparigas a jogar à bola, que não tem jeito nenhum, podíamos era estar na cozinha ou estar em casa a arrumar», conta. «Isso magoa. Magoa quem está aqui a representar um clube, a representar uma terra, e que, no meu caso e no da minha irmã, leva o nome de Vila Verde por muitos cantos do mundo. Acho que isso é que devia ser reconhecido», conclui Regina.

Por sua vez, a FPF tem, no entender de Regina, «apostado muito nas seleções», pelo facto de «já quererem selecionadores a tempo inteiro, que vivam só daquilo, e pelo projeto que estão a fazer com camadas mais jovens, já a pensar no futuro da Seleção A». Para a atleta barcelense, «o trabalho está a ser bem feito» e os resultados, embora não sejam ainda tão bons quanto o desejado, «já são melhores do que eram antes». Até mesmo as jogadoras levam o futebol «mais a sério»: «Antes ia-se para um jogo com o objetivo de não perder por muitos, agora a mentalidade das jogadoras e a mentalidade que os treinadores nos incutem a nós é: vamos para um jogo para fazer o nosso jogo e para tentar ganhar e não não sofrer muitos golos».

De resto, o ambiente nos balneários é de «grande entrega», garante Regina. E Leandra acrescenta: «para nós, que não recebemos qualquer pagamento, só pode ser mesmo por amor à camisola e pelo amor ao desporto e por todas aquelas sensações que vivemos dentro de campo».

| Reportagem publicada na edição 0.5 do Obli (junho de 2014) |

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