Desporto adaptado: a atividade física como forma de integração

Surgido no princípio do século XX, o Desporto Adaptado – para portadores de deficiências – só no final da II Guerra Mundial teve oficialmente início e, desde então, não terá parado de crescer. De acordo com o Comité Paralímpico de Portugal, as modalidades praticadas por pessoas com deficiência são, a título de exemplo, atletismo, basquetebol, boccia, equitação, judo, natação e ténis de mesa

MÁRCIO DIAS: O “MÁGICO” QUE DRIBLOU DE PORTUGAL PARA ESPANHA

Márcio Dias responde ao Obli a partir de Burgos (Espanha), para onde se mudou em 2013: «Vim viver o meu sonho: jogar basquetebol em cadeira de rodas numa liga onde jogam alguns dos melhores jogadores do mundo». O atleta natural dos Feitos mantém o número 4 na equipa Servigest Burgos e “Mágico” é apelido que continua a assentar-lhe bem.

Em 2013, depois de ter sido campeão nacional e o melhor marcador pela Associação Portuguesa de Deficientes (APD) de Braga e, na altura, desempregado, surgiu-lhe o irrecusável: «Agarrei a oportunidade de poder vir trabalhar num centro de emprego especial, em Burgos, e praticar o desporto que amo na equipa que é patrocinada por essa empresa».

Márcio Dias, o Mágico, pratica BCR há 22 anos [Foto de: Javier García “JARCHA”]

Márcio Dias nasceu, a 11 de setembro de 1980, com uma distrofia dos membros inferiores. A patologia, contudo, não haveria de limitar-lhe completamente a vida. Experimentou atletismo em cadeira de rodas, mas percebeu ser o basquetebol a modalidade que melhor se adequava à sua deficiência. Começou, então, a praticar aquela que é considerada a modalidade mais apropriada para deficientes físicos em 1993, na Associação de Deficientes Motores de Barcelos. Depois, em 2005, Márcio foi jogar para a APD Braga. E, com o atleta barcelense, a magia está em campo: «A magia está na simplicidade que temos em controlar a cadeira e a bola, ao mesmo tempo que fintamos os adversários e atacamos os cestos. Parece fácil o que acabei de dizer, mas na realidade é necessário muito trabalho para que consigamos esta complexidade em movimentos mágicos para as pessoas que nos vão apoiar». Pelo meio, Márcio conciliou desporto com vida profissional, como, de resto, ainda hoje faz. Começou a trabalhar, aos 25 anos, numa empresa de construção civil, na qual era o responsável pelo estaleiro e pelo parque automóvel. Depois, esteve no Município de Barcelos como técnico de informática e, em 2012, terminado o contrato, ficou no desemprego. Foi nessa altura, então, que lhe surgiu a oportunidade de representar o Servigest Burgos.

Além de jogar no clube espanhol, o Mágico – como é conhecido – soma representações pela Seleção Nacional de Basquetebol de Cadeira de Rodas (BCR). «Não considero uma responsabilidade, mas sim um orgulho, poder representar as cores do nosso país aonde quer que nos desloquemos”, garante ao Obli. E porque, nota, «só são selecionados os melhores», para pertencer a esse lote é preciso «treinar muito», até porque o BCR «exige muito, não só do físico como também da mente». Trabalho e tempo são, de resto, elementos-chave para o sucesso: «É necessário dedicar muito tempo e muito trabalho para conseguirmos ser os melhores e só dessa forma é que chegamos aos jogos e conseguimos transmitir a alegria e a magia do desporto que praticamos, só com essa dedicação é que conseguimos viver o momento e partilhar esse momento com todos os que nos rodeiam».

EM PORTUGAL, «OS PATROCÍNIOS SÃO ESCASSOS»

Existem várias críticas quanto à falta de condições adequadas para se preparar para as provas ou de outro tipo de apoios (financiamento e massa adepta, por exemplo). Até ao nível da mais alta-competição, de que é exemplo a Seleção Nacional de BCR, as dificuldades de financiamento são evidentes. Exemplo disso é o facto de não ter participado nas duas últimas edições do Campeonato da Europa por falta de verbas. Este ano, porém, será diferente. «Este ano, não só conseguimos esse patrocínio para participar, como também vamos organizar o Campeonato da Europa – Divisão C, que vai realizar-se em Lisboa, de 5 a 12 de julho», conta Márcio Dias ao Obli.

Enquanto atleta de desporto adaptado, Márcio entende que a maior dificuldade «é conseguir uma cadeira de rodas adequada à deficiência, uma vez que é o material é muito caro». E pormenoriza: «As mais acessíveis custam em média 3500€ e podem ir até aos 6000€». Em Portugal, «os patrocínios são escassos», pelo que se torna difícil evoluir como no resto da Europa, considera. Em Espanha, Márcio nota uma «grande diferença em relação aos apoios financeiros e aos apoiantes do BCR»: «A mentalidade dos espanhóis é mais aberta que a nossa. Aqui [em Espanha] há a compreensão de que temos limitações e daí apoiarem mais e criarem mais condições para nós».

Embora admita «algumas críticas que possam ser feitas ao sistema de financiamento e a algumas dificuldades sentidas pelos praticantes nas suas condições de preparação», o secretário de Estado do Desporto e Juventude, Emídio Guerreiro, garante ao Obli que a tutela tem apoiado o desporto paralímpico e dá disso exemplos: «Aceitámos, sem discutir ou contrapor, a proposta de aumento do valor das bolsas dos atletas paralímpicos apresentada pelo Comité Paralímpico de Portugal, para o ciclo olímpico Rio 2016; aprovámos um aumento de 55% nas verbas destinadas à preparação paralímpica Rio 2016 em comparação com as verbas utilizadas no ciclo paralímpico de Londres 2012 […] e diminuímos de 66% para 50% a diferença do valor monetário dos prémios de mérito por obtenção de medalha de ouro paralímpica, em comparação com a olímpica». Emídio Guerreiro nota contudo que, apesar da «enorme evolução que tem sido conseguida no desporto para pessoas com deficiência», «muito caminho ainda há a fazer e nesse particular não tem existido imobilismo».

DESPORTO ESCOLAR ADAPTADO: BOCCIA NA ESCOLA DE MANHENTE, HÁ NOVE ANOS

Na Escola Básica dos 2.º e 3.º ciclos de Manhente, existe, há nove anos, um grupo de Boccia adaptado, integrado no Desporto Escolar, tendo sido já vários os professores de Educação Física e os alunos que por lá passaram.

Na altura da criação da equipa, a recetividade por parte da comunidade escolar foi «ótima», considera o professor responsável, Pedro Resende. «Toda a comunidade escolar participou e ajudou na aquisição de todo o material necessário para a prática do Boccia, desde kits de bolas, kits de arbitragem, rampas, etc.», exemplifica o docente de Educação Física. E ainda hoje «os colegas reconhecem que estes miúdos jogam bem Boccia e acabam por motivá-los e apoiá-los aquando das suas participações nos encontros de Boccia».

Boccia chegou a Portugal em 1983 e tem sido integrado no Desporto Escolar [DR]

Conforme recorda ao Obli Pedro Resende, «o Boccia do Desporto Escolar prevê a participação de alunos com algum tipo de deficiência, alunos com Necessidades Educativas Especiais (NEE) e sem deficiência ou NEE». Neste momento, em Manhente, os alunos que integram este grupo – cinco, com idades compreendidas entre os 12 e os 15 anos – apresentam necessidades educativas especiais (problemas de aprendizagem e paralisia cerebral). Mas, em anos anteriores, outros houve com Trissomia 21 e deficiência motoras. «São alunos muito interessados e motivados, procurando sempre melhorar os seus resultados. Contudo, dadas as suas limitações, apresentam algumas dificuldades de atenção e concentração, o que prejudica o seu rendimento nas provas em que participamos», atenta Pedro Resende. No entanto, ressalva o docente, o essencial, mais do que os resultados desportivos, é «o desenvolvimento social e pessoal, melhoria do bem-estar, aumento da autonomia, melhoria das capacidades físicas e a integração dos nossos alunos na sociedade».

«[PROCURAMOS] AS CAPACIDADES DE CADA UM E TENTAMOS TRABALHÁ-LAS E MELHORÁ-LAS»

Desporto de estratégia e precisão, o Boccia é, desde 1984 (nos jogos de Nova Iorque), uma modalidade Paralímpica e é, conforme referido na página oficial do Desporto Escolar, «considerada a modalidade principal para atletas portadores de paralisia cerebral». Esta prática chegou a Portugal em 1983 e tem vindo a ser integrada no Desporto Escolar.

O Boccia, nota Pedro Resende, «para além de permitir a melhoria das capacidades físicas (destreza, força, coordenação motora, perícia), estimula o exercício mental (cálculo de distâncias e velocidade, criatividade, estratégia, etc.)». Esta modalidade reforça, pois, competências nas crianças com deficiência. É essa, pelo menos, a perceção do docente, diariamente: «É principalmente no convívio diário com estas crianças que nos apercebemos da sua evolução, contudo também recebemos muito feedback positivo por parte dos pais e encarregados de educação». «No Boccia, não procuramos as dificuldades apresentadas, mas sim as capacidades de cada um e tentamos trabalhá-las e melhorá-las de forma a poderem aplicá-las no seu dia a dia», conclui Pedro Resende.

DESPORTO ADAPTADO COMO AFIRMAÇÃO

O incentivo à prática da atividade física por parte de todos os cidadãos é, de acordo com o secretário de Estado do Desporto e Juventude, uma evidência, sendo que a intervenção junto de pessoas com deficiência é «prioritária». Nesse sentido, em maio do ano passado, foi apresentado o Programa Nacional de Desporto para Todos – com 1,5 milhões de euros previstos para a edição de 2015 –, que «assenta em pilares que visam a promoção e o desenvolvimento desportivo, a educação para e pelo Desporto e a promoção da saúde, assentando a sua operacionalização numa perspetiva inclusiva». Conforme referido por Emídio Guerreiro ao Obli, tem sido «apoiado, desde a primeira hora, o desenvolvimento de um conjunto alargado de projetos de integração de redes de parceiros nacionais, regionais e locais de forma a potenciar os resultados obtidos no que diz respeito à generalização da prática desportiva neste setor».

Márcio Dias, o Mágico do basquetebol em cadeira de rodas, sente precisamente que, no basquetebol, se afirma mais pelas suas capacidades do que pelo problema de saúde: «O meu problema de saúde só me abriu as portas para ter acesso a praticar este desporto; agora a dedicação, o trabalho e a paixão pelo BCR já sai de dentro de nós e, aí sim, temos que mostrar as nossas capacidades». E observa: «Por vezes somos nos próprios que criamos barreiras e que nos isolamos e dessa forma é mais difícil a nossa integração».

| Reportagem publicada na edição 0.8 do Obli (junho de 2015) |

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