Os problemas da falta de memória debatidos à mesa do café

Por ser um problema de saúde, mas também social, Catarina Alvarez, psicóloga e coordenadora nacional do projecto “Café Memória”, destaca a importância de despertar consciências junto da sociedade. “Por isso é que estas iniciativas, em todo o país, são feitas em locais onde toda a comunidade circula, para mostrar que esta problemática não se confina aos ambientes hospitalares ou institucionais”, explica Catarina Alvarez, para afirmar logo de seguida: “É um problema de toda a comunidade”. 

Em Barcelos, o Café Memória arrancou sábado passado. Reuniu pessoas com problemas de memória, diagnóstico de demência, cuidadores e amigos. Mário Lima, médico psiquiatra e mentor do Café Memória em Barcelos, conta que, entre os participantes, o sofrimento é o denominador comum. “Deve haver um denominador comum, que é o sofrimento que isto provoca fundamentalmente aos cuidadores, às pessoas que estão a sofrer os efeitos colaterais, ou seja, os familiares que têm que dar apoio a esta situação, por vezes, sem haver grande solução ou quase nenhuma solução, quanto muito haverá a possibilidade de travar ou retardar o desenvolvimento desta doença, que é terrível”, explica ao JB.

Nestes encontros informais, “para partilha de experiências e de informação”, procura-se “quebrar o isolamento social em que muitas destas pessoas se encontram”. “Mas também temos uma missão no que respeita à difusão da informação sobre demências para a comunidade. É preciso conhecer para compreendermos melhor e tornarmo-nos uma sociedade mais inclusiva”, acrescenta Catarina Alvarez. A psicóloga sublinha ainda que “as demências são uma problemática de saúde, mas também há aqui uma grande questão a nível social. As pessoas têm de ser acompanhadas do ponto de vista social, têm de estar ligadas à comunidade”. E explica: “Infelizmente, para a maioria das demências não há uma cura e temos que ir acompanhando estas pessoas, não as deixando para trás, porque merecem, como todos nós, continuar a ser incluídas e a participar nos eventos e naquilo que ainda têm para dar”.

Foi justamente nesta linha de ideias que Rosa Alves participou na primeira sessão do Café Memória. Aos 77 anos, não tem problemas de memória; pelo menos, nunca notou e nunca ninguém lho apontou. Contudo, Rosa Alves conhece “algumas pessoas” nessa situação e, portanto, acaba por lidar com a problemática. “Tenho quase que adivinhar o que querem dizer, porque eles às vezes não sabem… ‘Olha, eu disse-te isto?’. ‘Ainda não’. ‘Ah, pensei que tinha dito’”, exemplifica. “Isto é um avivar para nós sabermos como lidar com estas pessoas”, conta Rosa Alves ao JB.

E as pessoas com quem lida têm comportamentos vários e elucidativos: “Desde perder as chaves, não saber meter as chaves na porta, não saber onde estão, chegam a minha casa e não conseguem orientar-se dali em diante, ficam confusas, há quem me conheça, mas não conheça os filhos”. “A gente tem de conviver com estas pessoas, tem de pô-los a funcionar”, remata. 

“Balanço absolutamente positivo”

O Café Memória é o ponto de encontro entre pessoas com problemas de memória ou demência e respectivos familiares e cuidadores, cuja primeira sessão foi muito participada. No final, Catarina Alvarez, psicóloga e coordenadora nacional do projecto Café Memória, fez um balanço “absolutamente positivo”. “A comunidade de Barcelos aderiu em peso, casa cheia logo na primeira sessão, e adivinho que este Café Memória em Barcelos tenha o sucesso que os outros também têm tido, temos aqui parceiros locais muito fortes – o Município de Barcelos e a Casa de Saúde de S. João de Deus”, sublinhou.

Também Mário Lima, o mentor do Café Memória em Barcelos, assistiu com agrado à primeira sessão: “Correu muito bem. Foi muito interessante e desde já se vislumbra o proveito que isto pode ter para este problema social e de saúde que é a doença de Alzheimer”. “Isto é uma partícula de ajuda, porque não vai rematar as dificuldades que a doença de Alzheimer traz, mas é uma ajuda, e tudo que seja ajuda, por ínfimas partículas que seja, são bem-vindas”, concluiu.

Nesta primeira sessão, sobre “Sinais e sintomas: envelhecimento, deterioração cognitiva e demência”, interveio Élia Baeta, médica neurologista do Hospital de Viana do Castelo. A segunda sessão acontece a 11 de Março, entre as 10h00 e as 12h00, no Café na Praça. Será sobre “Demência: cuidados no dia-a-dia”.

[in Jornal de Barcelos, edição de 15 de Fevereiro de 2017]

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