“Estes alunos nunca se sentiram tão valorizados”

“Inclusão”, “artesanato” e “Caminho de Santiago”. São estes os três eixos que orientam o Projecto “Canecas”: a inclusão social dos alunos com Necessidades Educativas Especiais (NEE), a promoção do artesanato e dos produtos locais e a cooperação com o Caminho de Santiago. A ideia surgiu há já quatro anos, no Agrupamento de Escolas Rosa Ramalho, envolve 70 alunos com NEE e a opção pela caneca tem que ver com o valor afectivo do objecto, como explica Jorge Martins, um dos coordenadores do projecto: “Nós criámos sempre um afecto à caneca que usamos todos os dias e as pessoas ainda não pararam para pensar nisso. Se vocês pensarem, só vão largar a vossa caneca quando acontecer aquele acidente que é ‘partiu’”. 

As primeiras canecas começaram já a ser produzidas, numa primeira fase, com a colaboração de um oleiro. Aos alunos coube primeiro desenhar um esboço, depois pintar as canecas e, por fim, embalá-las. Canecas com história e estórias, canecas que, conta Jorge Martins, “vão falar por si”: “Eles [os alunos com NEE] estão a aprender muito. Há um desenvolvimento que quem os acompanha consegue ver: o eixo, o fio e a evolução destes meninos na destreza, no traço, em tudo”. E, sublinha o docente de Artes Visuais, “estes alunos nunca se sentiram tão valorizados”. “É um bocado de barro, em termos materiais, mas, nas outras valências, isto é muito mais do que uma caneca”, remata.

Além das artes plásticas…

O Projecto “Canecas” vai muito além das canecas, isto porque envolve ainda a produção e a promoção de bolachas, chás, compotas e ervas aromáticas. Foram os alunos com NEE que, juntamente com Rosa Viana, professora de Ensino Especial, plantaram alfazema, tomilho, alecrim e outras plantas, que depois cortaram e secaram para fazer chás e sacos de cheiro. Confeccionaram também bolachas e compotas. “Os alunos com NEE também têm talento e, muitas vezes, é preciso perceber o que é que é possível fazer, o que é que nós conseguimos fazer, o que conseguimos lá ir buscar”, contou Rosa Viana, para quem este projecto “é uma mais-valia para os alunos com Necessidades Educativas Especiais”.

Canecas para mais tarde recordar…

A partir de Abril, as canecas produzidas pelos alunos do Agrupamento Rosa Ramalho vão estar disponíveis nos diferentes albergues de peregrinos do concelho, para que os caminheiros de Santiago de Compostela possam levar como recordação uma caneca personalizada pelos alunos com NEE. Também a partir dessa altura, às terças-feiras de manhã, a escola vai estar de portas abertas aos peregrinos de Santiago, para lhes adocicar a viagem e, ao mesmo tempo, promover o projecto. A ideia é convidá-los para um pequeno-almoço em que, sobre a mesa, vão estar os produtos que resultam do projecto “Canecas”.

Para a directora do Agrupamento de Escolas Rosa Ramalho, Paula Sousa, este é um projecto que pode ser replicado noutras escolas: “Vamos produzir um guia do projecto, para possibilitar ser replicado noutros contextos, com canecas ou com outros objectos, mas pensamos que esse guia será uma mais-valia para o próprio concelho, para replicar o projecto noutros contextos”. O projecto “Canecas” conta com o apoio do Município de Barcelos e da EDP Solidária, entre outros. Armandina Saleiro, vice-presidente da autarquia, acredita que “este projecto será uma referência além-fronteiras”, porque, explica, “muitas vezes fala-se de escola aberta à comunidade, de escola inclusiva, mas não passa muito do papel”. E sublinha: “Hoje, sim, temos aqui um projecto que efectivamente é uma escola aberta, um projecto inclusivo, em que todos os meninos podem dar o seu contributo para mostrar a excelência de uma escola que promove esta inclusão”. “É ver onde estão as oportunidades, é abraçar as oportunidades, é acreditar nessas oportunidades”, rematou a vereadora. 

[in Jornal de Barcelos, edição de 29 de Março de 2017]

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