O combate ao estigma e a integração pela jardinagem

Pelo segundo ano consecutivo, o jardim idealizado pela Casa de Saúde de S. José (CSSJ) volta a estar entre os seleccionados para o Festival Internacional de Jardins de Ponte de Lima. Concebido e idealizado por Alexandra Campos Teixeira, engenheira agrícola, e por Luís Sá e Melo, arquitecto, o projecto foi executado pelos cerca de 19 utentes que fazem parte da equipa de jardinagem da instituição, apoiados por Francisco Ferreira, carpinteiro da Casa, e ainda Fernando Correia, jardineiro.

Nesta 13.ª edição, a ideia barcelense foi uma das 12 seleccionadas de entre 34 propostas oriundas de 11 países. Os utentes do Serviço de Reabilitação Psico-social da CSSJ, entre os 21 e os 65 anos, estão envolvidos na produção de um jardim apelidado de “Globalização das Plantas”. Ao longo de três meses de trabalho, os utentes trabalharam na execução da ideia e, numa fase final, com o apoio também dos jardineiros do município de Ponte de Lima.

A proposta barcelense, lê-se no site do Festival, “assenta nesta ideia de permuta cultural que as plantas trouxeram durante as Descobertas”. E Alexandra Campos Teixeira, clarifica ao JB: “O nosso jardim teve por base o tema que era proposto este ano pelo Festival de Jardins, que era o “Jardim das descobertas”. Esta palavra “descobertas” remeteu-nos imediatamente para a época dos Descobrimentos. E pensamos, por um lado, nas plantas que, a partir daí, de certa forma se globalizaram, deixaram de estar limitadas a um determinado espaço geográfico e se difundiram pelo mundo todo”. Este é também um jardim que dá conta da História da instituição: “Por outro lado, queríamos também aproveitar a oportunidade para dar a conhecer a história da Ordem Hospitaleira de S. João de Deus, nomeadamente da província portuguesa, que desde os séculos XV, XVI, acompanhou os descobridores e os navegadores pelo mundo todo. Portanto, procuramos dar a conhecer aos visitantes o percurso que a Ordem Hospitaleira de S. João de Deus teve ao longo destes últimos séculos. É uma instituição que também é global”.

Apresentada a ideia, é a engenheira agrícola quem nos acompanha numa visita ao espaço. “Nós convidamos os visitantes a entrarem e encontram primeiro um corredor, um pouco mais fechado, que não abre imediatamente ao visitante todo o jardim, nesta ideia de descoberta”, explica Alexandra Campos Teixeira. Num primeiro espaço, está em destaque a videira, “originária da Europa, está hoje dispersa pelo mundo todo”. Depois, encontramos uma estrutura em madeira, onde está em destaque a planta do café, “uma planta africana que se dispersou também fruto das descobertas”; numa outra estrutura, está o ananás, “uma planta originária da América do Sul e, hoje em dia, a maior produção até é na Ásia” e, por fim, o arroz. São estas as quatro plantas que estão em destaque. 

Depois, um pouco por todo o jardim “bastante comestível”, encontramos o milho, a batata, a batata-doce, o feijão, o tomate, “uma série de plantas que chegaram ao nosso país, fruto dessa globalização de plantas”. Ainda pelos caminhos, encontramos a romãzeira, símbolo da Ordem Hospitaleira de S. João de Deus. “Quisemos pô-la no caminho como que simbolizando a dispersão e todo o trabalho que a Ordem tem ainda em todo o mundo”, explicou a engenheira agrícola.

A jardinagem no combate ao estigma

Há já 15 anos que, na CSSJ, os utentes podem fazer parte da equipa de jardinagem, que zela pelos espaços verdes da instituição. A ideia de participar no Festival, essa, existe “há bastantes anos”. “Achávamos que era uma boa oportunidade, por um lado, para lhes dar a conhecer outros espaços, contactar com outras pessoas, mas também para desmistificar um pouco a ideia que existe em relação à doença mental, algum preconceito e estigma. E, então, todas as possibilidades que temos de interagir com a sociedade são importantes”, explica ao JB Alexandra Campos Teixeira.

Também por isso, em Ponte de Lima, os jardins são executados pelos jardineiros municipais, mas, neste caso, foram os próprios utentes da CSSJ que o puseram em prática: “No ano passado, na primeira vez em que fomos seleccionados, foi logo uma opção sermos nós a concretizar, porque o principal objectivo da nossa participação neste Festival é precisamente dar oportunidade aos utentes de desenvolverem esta actividade no exterior da Casa, precisamente para combaterem um pouco o estigma e preconceito que existe em relação à doença mental”.

E a actividade, além de promover a autonomia e competências, permitiu que cada um dos utentes fizesse aquilo para que estava mais habilitado. “O gosto é sempre enorme, obriga-nos a fazer uma gestão muito cuidada, no sentido de dar oportunidade a todos de participar”, avalia a engenheira agrícola É, aliás, com grande entusiasmo que os utentes com quem estivemos à conversa nos falam deste projecto. João Manuel faz parte da equipa de jardinagem há quase três anos e, em Ponte de Lima, ajudou sobretudo nas sementeiras: “Fiz lá várias coisas. Semeei o arroz, os tomates, batatas, feijão e milho”. João Manuel já participou ano passado e considera que desta vez foi mais fácil. Por terras limianas, também Rúben trabalhou na execução do projecto: “Estive a rapar as ervas e a semear também. E pus terra para semear o arroz e areia também. “ O outro foi mais complicado, porque trabalhamos mais”, sendo que, desta vez, valeu alguma ajuda dos jardineiros municipais de Ponte de Lima. Jorge está na equipa já lá vão quase 13 anos. Conhece bem os jardins na Casa e já no ano passado participou no Festival, tanto que, desta vez, aceitou de imediato. “No ano passado ficou bem, mas este ano ficou melhor. Queria ganhar o primeiro prémio”. Isto porque faltou dizer que, na edição passada, o jardim barcelense – “Mundo Claustrum” – conquistou o terceiro lugar.

A 13.ª edição do Festival Internacional de Jardins de Ponte de Lima decorre até 31 de Outubro. O festival foi galardoado, este ano, com a distinção “Europe for Festivals, Festivals for Europe” – EFFE Label 2017-2018 e, em 2013, recebeu a distinção internacional de “Festival do Ano 2013”, no âmbito do prémio “Garden Tourism Awards”.

[in Jornal de Barcelos, edição de 14 de Junho de 2017]

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