Aura Miguel e as três décadas de ‘altos voos’

A jornalista da Rádio Renascença, Aura Miguel, é vaticanista há praticamente três décadas. A “aventura de seguir o Papa de perto” e de acompanhar a actividade da Santa Sé começou, em 1986, no pontificado de João Paulo II. É, porventura, a portuguesa que melhor conhece os três últimos pontificados, com três Papas “totalmente diferentes, mesmo radicalmente diferentes, como pessoa, como estilo, como percurso, a própria idade com que são eleitos”. De João Paulo II fala como “o Papa da Esperança”. “Acho que ele introduziu grande esperança, porque apostou muito nos jovens, veio arejar muito a igreja. E também pelo que mostrou mais no final da sua vida, como ele encarou a doença, porque, apesar das limitações, fazia passar uma esperança grande, uma certeza de relação com Jesus, e por isso uma grande esperança. Ele não era definido pela dor e pelo sofrimento, remetia para outra coisa maior”, explicou ao JB Aura Miguel. O Papa Bento XVI é “o Papa da fé, claramente, das razões da fé, que nos alerta para investirmos nas motivações racionais para aderir à fé”. E Francisco o Papa “da caridade, da misericórdia, do amor”. “É algo que, nestes tempos, faltava, porque, às vezes, as pessoas olham para a Igreja como um castelo cheio de regras e de coisas proibidas. Este Papa veio mostrar que não é nada disso, que é um lugar onde, antes de mais, a pessoa se deve sentir acolhida e amada, independentemente do seu percurso”, observou.

Acreditação permanente 

Aura Miguel é uma dos dois jornalistas portugueses – a par de Octávio Carmo, da Agência Ecclesia – com acreditação permanente para a sala de imprensa do Vaticano. A jornalista explicou ao JB que, devido a isso, têm “uma série de códigos de acesso a documentação, com antecedência, o que facilita o trabalho”. E exemplificou logo depois: “Hoje é quarta-feira [11 de Outubro], é dia da audiência geral. Duas horas antes, eu já sabia o que é que o Papa ia dizer, sabia que ele ia falar de Fátima e do 13 de Outubro, portanto, alertei a Renascença e, mal ele falou, já tínhamos aquilo preparado, o que facilita muito a vida”. Além do acesso a documentação com antecedência, continuou Aura Miguel, a acreditação permanente permite que os jornalistas se candidatem a acompanhar o Papa “muito de perto”, a ser integrados nos pequenos grupos de jornalistas que sobem à Biblioteca, por exemplo, quando ele recebe delegações oficiais. “Temos uma certa facilidade de acesso a lugares, a textos e contextos, que a maioria dos jornalistas não tem”, resumiu.

O jornalismo, esse, surge por acaso na vida de Aura Miguel, natural de Mem Martins. “Estudei Direito e queria seguir a carreira diplomática, gosto imenso de viajar. Fiz estágio em advocacia, trabalhei no Ministério, mas isso também me foi ajudando a aperceber que não era por aí e, por coincidência, o exame ao Ministério dos Negócios Estrangeiros para a carreira diplomática estava fechado e aconteceu convidarem-me para jornalismo, primeiro, para trabalhar num jornal e depois na Rádio Renascença. Na altura, pensou “Não perco nada, vou fazer uma experiência”. Mas, recorda agora, “foi amor à primeira vista, sobretudo com a rádio, porque não fazia ideia que era tão fascinante fazer rádio”. A chegada ao jornalismo coincidiu com o pontificado de João Paulo II, que, conta Aura Miguel, “tinha introduzido uma novidade na Igreja, que era viajar pelo mundo para divulgar a mensagem da Igreja de uma forma muito criativa, na altura, e aconteceu que os meus directores da Rádio Renascença entenderam que valia a pena fazer uma reportagem com o Papa, em Assis. Foi o meu baptismo, digamos assim, Papal”. Trinta anos depois, são já 93 as viagens papais e é inegável sentir-se privilegiada por fazer algo de que gosta. “Junto o útil ao agradável. Eu sou católica e cresci na fé. Portanto, sou paga para trabalhar numa área de que gosto e, ainda por cima, beneficio do ponto de vista humano, mas faço-o com muito entusiasmo, porque acho que só assim é que tem sentido”.

Aura Miguel é jornalista da Rádio Renascença e a única vaticanista portuguesa que habitualmente integra a comitiva de jornalistas que viajam no avião papal. Esteve em Barcelos, há uma semana, a convite do Arciprestado de Barcelos. Diante de um Auditório Municipal lotado, Aura Miguel falou de “Fátima, ontem e hoje, em Portugal e no mundo”.

“Conversas em Altos Voos”

Em Março deste ano, foi apresentado “Conversas em Altos Voos. Encontros e Entrevista com o Papa Francisco”, da autoria de Aura Miguel. O livro tem como ponto de partida a entrevista que o Papa Francisco concedeu à Rádio Renascença, mas vai além disso. Ao longo de mais de uma centena de páginas, entre fotografias e texto, é também um relato dos detalhes e peripécias em ‘altos voos’, aquando das viagens papais e em que Aura Miguel integra a comitiva de jornalistas. O livro tem também uma versão braille e áudio.

[in Jornal de Barcelos, edição de 18 de Outubro de 2017]

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