“Una Donna Sola” e a condição da mulher

Em palco, apenas Maria. Passa incansavelmente a ferro. Todos os dias, o marido, Aldo, a tranca em casa, antes de sair para trabalhar. Maria trata das lides domésticas, cuida do filho bebé e do cunhado doente e atrevido, com uma “mão dançarina”. É, no fundo, criada, enfermeira, babysitter, “pau para toda a obra”. Um tarado liga-lhe também todos os dias e, no prédio em frente, “um mirone ordinário” não lhe dá descanso.

Eis que Maria se apercebe que, também no prédio em frente, num apartamento antes desabitado, se instalou uma nova inquilina. Maria protagoniza, então, um monólogo, em jeito de conversa com a nova vizinha. Num espectáculo divertido e sem pudores, conta-lhe toda a sua vida. Recorda-se de como se apaixonou por um rapaz de 20 anos, que lhe ensinava inglês – “Caí em tentação!” – e com quem descobriu o que era o amor, que “não era nada daquilo” como com o marido, o mesmo que a violentava. “Ele bate-me. Diz que é porque me ama, porque me adora […] É assim que devo sempre estar: pronta para ser usada”, conta, a determinada altura, rodeada de escuridão. Mas, um dia, foram apanhados por Aldo, na casa do rapaz, o tal rapaz, que, afinal, não a amava mesmo, era “um porco como todos os outros”. Cansada e determinada, Maria mata o cunhado “doente e atrevido”, o “mirone ordinário” e a peça termina enquanto espera pelo marido, de arma em punho.

Apresentada, em Barcelos, em Dia Internacional da Mulher, “Una Donna Sola” pretende reflectir sobre a condição da mulher e sobre a relação mulher/homem. A peça, da autoria de Franca Rame e do prémio Nobel da Literatura Dario Fo, foi levada a cena pelo Teatro das Beiras, no arranque da 1.ª edição do FESTIBA – Festival Internacional de Teatro de Barcelos. O certame acontece ao longo do mês de Março, por iniciativa d’ A Capoeira – Companhia de Teatro de Barcelos, e conta com a “participação de grupos internacionais, mas também apresentação de dramaturgias estrangeiras, deixando sempre espaço para o que é português”. Entretanto, o certame prossegue este fim-de-semana. Sábado, A Capoeira apresenta “Menina Júlia”, pelas 21h30. Já domingo, pelas 16h00, a peça “Eu sou o meu avô” é levada a cena pelo grupo No Encalço de Ideias. Os espectáculos têm entrada gratuita, mas sujeita a reserva.

[Publicado em “Jornal de Barcelos”, edição de 13 de Março de 2019]

Ver mais artigos

Para ouvir

Gil Vicente FC – Época 2023/2024

A luta do Gil Vicente Futebol Clube, a saga pela permanência no escalão maior do futebol português, chegou ao fim, mas permaneceu até perto da derradeira jornada. Já com os gilistas a respirarem de alívio, recordamos toda a época desportiva.

Para ler

GUARDIÕES DA HISTÓRIA – Memórias da Revolução dos Cravos

A 25 de abril de 1974, Portugal acordava em alvoroço, com uma revolução na rua.
Em “Guardiões da História”, partilhamos os testemunhos e as memórias de quem viveu a revolução e assistiu aos primeiros passos de uma democracia em construção.

O meu clube é melhor que o teu!

Rubrica emitida no programa “Acontece”, da Rádio Barcelos, para (dar a) conhecer a História dos clubes do concelho que militam nas 1.ª e 2.ª divisões da Associação de Futebol de Braga.