A dádiva de sangue como “um sentimento ético de salvar a vida dos outros”

Foi “quase de forma violenta” que Adelino Marques, um barcelense – natural de Roriz, mas a residir em Esposende – se tornou dador de sangue. Em 1983, tinha então 30 anos, “nem sequer imaginava o que era ser dador de sangue, nem sequer estava minimamente motivado para isso”, quando o pai, devido a um cancro, teve de ser intervencionado. “Nessa altura, o Hospital de S. Marcos, em Braga, convidou os familiares a darem sangue para repor stocks, porque diziam eles que havia muita dificuldade a nível da dádiva de sangue”. Foi nessa altura – já lá vão 35 anos e 67 dádivas – que Adelino Marques se tornou dador de sangue e mais consciente, desde logo, para a falta de sangue. “Comecei a pensar se poderia ajudar a colmatar esta deficiência que então havia e que era muito grande, que era a falta de sangue. Aliás, nessa altura, Portugal importava muitíssimo sangue do estrangeiro”, explicou ao JB.

Foi por iniciativa de Adelino Marques que se fundaram “várias associações de dadores de sangue”, entre elas, a Barcelos Solidário – Benemérita Associação Humanitária dos Dadores de Sangue do Concelho de Barcelos, “há 18 anos no terreno”.

“Ajudar os outros”

A Barcelos Solidário é uma associação sem fins lucrativos, com perto de uma centena de associados e “sobrevive com os apoios e ajudas pontuais, designadamente do Ministério da Saúde, além da colaboração, carolice, trabalho gratuito e voluntário dos seus dirigentes e das inúmeras instituições políticas, religiosas e civis” que com ela colaboram. De forma simples, a associação barcelense ‘faz a ponte’ com o Instituto Português do Sangue e da Transplantação (IPST), ao “acertar a organização de recolhas de sangue no concelho de Barcelos, em conjunto com o IPST, e sensibilizar as pessoas em cada freguesia e simultaneamente arranjar instalações. “O nosso trabalho é essencialmente de organização, de divulgação e de sensibilização das pessoas”, sintetiza Adelino Marques. 

Ora, foi numa dessas recolhas, em Alvito S. Pedro, que, na manhã de domingo, estivemos à conversa com duas dadoras. Maria de Fátima tem 47 anos e é dadora há vários anos, “desde 1980 e qualquer coisa”. Parca em palavras, mas com um sorriso de satisfação após uma dádiva, conta que o faz para “ajudar os outros”: “Um dia também posso precisar. Então gosto de ajudar os outros, para que depois tenha o mesmo sentido ajudar-me a mim”. Maria de Fátima nunca teve familiares nem pessoas próximas a precisar de transfusões de sangue – “ainda não e espero não ter”, apressa-se a acrescentar –, mas considera-se consciente para esta questão. Dá sangue “duas vezes por ano”, sem quaisquer medos ou receios, até porque, diz, “é como ir fazer umas análises”. No final da conversa, deixa um apelo para que “todas as pessoas dêem sangue”: “Além de mim, os meus filhos também dão, o meu marido não dá porque não pode, não se sente bem, mas todas as pessoas que possam dar que o façam. É em prol dos outros”. É esse também o sentimento que move Andreia Fernandes. Tem 34 anos, é dadora há cerca de cinco e fá-lo para “ajudar os outros, quem precisa”. Tomou a iniciativa movida pelas campanhas de sensibilização e sem quaisquer receios iniciais. “Acho que a maior parte das pessoas tem um bocadinho de medo de dar sangue. Depois de experimentarem, vêem que não custa nada e continuam. Acho que as pessoas se sensibilizam mais na altura das campanhas ou quando alguém está a precisar mesmo”, conta. E “ajudar faz bem”, atira Andreia Fernandes, em fecho de conversa.

Maria de Fátima e Andreia Fernandes foram dois testemunhos que recolhemos. Senhoras, por acaso, já que, de acordo com dados do IPST, homens e mulheres equivalem-se na dádiva de sangue, apesar de o número de dadoras ser ligeiramente superior.

“Portugal é auto-suficiente”

É num espaço improvisado, organizado dentro das limitações, que as recolhas são feitas em várias freguesias do concelho. As colheitas acabam por ser ajustadas à realidade de cada espaço, sendo que o consultório médico ocupa um lugar mais resguardado. A Barcelos Solidário trata da organização e divulgação das recolhas de sangue e registo de dadores de medula óssea, mas a recolha propriamente dita “exige profissionais altamente competentes e, como tal, tem de ser feita por uma entidade oficial, no caso, o IPST”, sublinha Adelino Marques. Vários enfermeiros e um médico orientam todo o processo. Inicialmente, os dadores fazem uma inscrição e preenchem um questionário, que traduz o “consentimento informado para a dádiva”. “O questionário tem o despiste de uma série de doenças e de comportamentos de risco que possam ou não impedir a dádiva de sangue. Depois de preenchido, a pessoa vai a uma triagem clínica, que pode ser efectuada quer pelo médico, quer pelo enfermeiro. Nessa triagem clínica, vão continuar a avaliar o questionário e a fazer realmente o despiste, numa tentativa de perceber se a pessoa reúne as condições para a dádiva de sangue”, explica Filipe Lima, enfermeiro no IPST. Depois, é efectuada a avaliação da hemoglobina, através de uma picada no dedo, que permite aferir se a pessoa tem uma quantidade de sangue suficiente para que possa ou não realizar a dádiva. Após esse momento, se a pessoa estiver apta para a dádiva, faz uma pequena refeição, para fazer um reforço do açúcar, e, por fim, a colheita. “Tiramos 470 mililitros de sangue para um saquinho, mais três tubinhos para fazermos as análises a todas as doenças que se possam contrair através do sangue – sida, sífilis, as hepatites. 470 mililitros que depois vão ser separados no laboratório – plaquetas, plasma e glóbulos vermelhos –. Se as análises estiverem bem, o dador recebe uma sms a agradecer e o sangue é distribuído pelos hospitais que necessitam”, explica Filipe Lima, enfermeiro no IPST há dez anos. É experiência bastante para ir percebendo os mitos e receios das pessoas, desde logo o “medo de se sentirem mal”. “Mas a probabilidade de uma reacção, quer durante quer após a dádiva, é muito reduzida. Se a pessoa fizer uma alimentação rica em açúcar e estiver bem hidratada, a probabilidade de se sentir mal é reduzida”, clarifica o profissional de saúde. Uma outra ideia errada das pessoas, aponta Filipe Lima, é a de que “ficam viciadas por dar sangue”. “É mentira. As pessoas podem dar sangue quando quiserem, o organismo nunca produz sangue em excesso, portanto, de cada vez que tiramos os 470 mililitros, o que acontece nos dias a seguir é que o organismo repõe esses 470 mililitros, mas não produz mais do que isso”, atenta o enfermeiro. De resto, Portugal é auto-suficiente em termos de dádiva de sangue, neste momento “não importamos nem exportamos sangue”, portanto, explica o enfermeiro Filipe Lima, “as colheitas são feitas em função das necessidades do próprio país”.

Altruísmo e solidariedade

Enquanto conversamos com o enfermeiro, há um entra-e-sai na sede da Junta de Freguesia de Alvito S. Pedro, onde decorre a recolha que acompanhamos.

Por ano, a Barcelos Solidário faz “à volta de 50 a 60 saídas para freguesias”, com “cerca de 50 dadores em cada uma”. Tem actualmente 3500 dadores registados no concelho de Barcelos e, no terreno há 18 anos, até 31 de Dezembro do ano passado, compareceram às recolhas 40.780 dadores e deram sangue 31.134, num total de 14.101,30 litros de sangue. “Desde 2011, houve uma clara diminuição no número de dadores, fruto das políticas restritivas do governo, com a retirada da isenção das taxas moderadoras aos dadores e com muitas notícias de falta de aproveitamento do plasma por parte do IPST, conta Adelino Silva, da Barcelos Solidário. Com a reposição da isenção do pagamento de taxas moderadoras, em 2016, “a situação melhorou mas ainda não foram atingidos os níveis de doação anteriores”, atenta o presidente da associação barcelense. Adelino Marques nota, ainda assim, que as pessoas estão cada vez mais conscientes da importância de dar sangue: “O dador, hoje e sempre, nunca recebeu nada em contra. Um dador é o símbolo do altruísmo e também da solidariedade, porque, como disse, não recebemos nada em troca. O que recebemos em troca é a satisfação de salvar ou recuperar a vida de outras pessoas, ainda por cima de uma forma anónima, porque damos sangue, mas não sabemos para quem, por ironia do destino, até pode ser para um eventual inimigo. Em cada dádiva, damos de uma forma altruísta, desinteressada, e isto traduz nas pessoas um enorme sentimento de dever cumprido, um sentimento ético de salvar a vida dos outros”, remata Adelino Marques.

[in Jornal de Barcelos, 10 de Outubro de 2018]

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